Cânticos ou Cantares de
Salomão
(Ct)
Escritor: Salomão.
Lugar da Escrita: Jerusalém.
Data: Cerca de 960 a.C.
“O mundo inteiro não era digno do dia em que este sublime Cântico foi
dado a Israel.” Assim expressou o “rabino” judeu Akiba, que viveu no
primeiro século da Era Comum, a sua admiração pelo Cântico de Salomão. O
título do livro é uma forma abreviada das primeiras palavras: “O cântico
superlativo, que é de Salomão.” No texto hebraico, é literalmente o
“Cântico dos cânticos”, denotando excelência superlativa, similar à
expressão “os céus dos céus” para os mais altos céus. (Dt.10:14) Não se
trata de uma coleção de cânticos, mas de um só cântico, “um cântico de
extrema perfeição, um dos melhores que já existiram ou que foram
escritos”.
O Rei Salomão, de Jerusalém, foi o escritor desse cântico, segundo
indicado na introdução. Estava altamente qualificado para escrever este
supremamente belo exemplo de poesia hebraica. (1Reis.4:32) É um poema
idílico, de grande significado e muito expressivo na sua descrição de
beleza. O leitor que puder visualizar o cenário oriental apreciará isto
ainda mais. (Ct.4:11,13; 5:11; 7:4) A ocasião para a sua escrita era
ímpar. O grande Rei Salomão, glorioso em sabedoria, forte em poder e
deslumbrante no brilho da sua riqueza material, que suscitou até mesmo a
admiração da rainha de Sabá, não conseguiu impressionar uma jovem
simples do interior por quem se enamorou. Por causa da constância de seu
amor por um jovem pastor, o rei não teve êxito. Portanto, o livro bem
poderia ser chamado de “O Cântico do Amor Frustrado de Salomão”. Deus o
inspirou a compor este cântico para o proveito dos leitores da Bíblia
das eras futuras. Ele o escreveu em Jerusalém. Talvez isso se tenha dado
por volta de 960 a.C., alguns anos depois de terminar a construção do
templo. Na época em que escreveu esse cântico, Salomão tinha “sessenta
rainhas e oitenta concubinas”, ao passo que no fim do seu reinado
possuía “setecentas esposas, princesas, e trezentas concubinas”. — Ct.6:8;
1Reis.11:3.
Nos tempos antigos, a canonicidade do Cântico de Salomão era
absolutamente incontestada. Muito antes de Cristo, era considerado
inspirado e parte integrante do cânon hebraico. Foi incorporado na
Septuaginta grega. Josefo o incluiu no seu catálogo dos livros sagrados.
Por conseguinte, tem as mesmas comumente citadas evidências de
autenticidade que quaisquer outros livros das Escrituras Hebraicas.
A canonicidade desse livro é, porém, contestada por alguns sob o
pretexto de que não há nele menção de Deus. O fato de não mencionar a
Deus não desqualifica o livro, assim como a mera presença da palavra
“Deus” não o tornaria canônico. No no entanto, no capítulo 8, versículo
6, diz que o amor é “a chama do Senhor”. Esse livro inquestionavelmente
faz parte dos escritos aos quais Jesus Cristo se referiu com aprovação,
ao dizer: “Pesquisais as Escrituras, porque pensais que por meio delas
tereis vida eterna.” (João.5:39) Além do mais, sua poderosa descrição da
sublime qualidade de amor mútuo, tal como existe em sentido espiritual
entre Cristo e sua “noiva”, distingue o Cântico de Salomão e lhe dá um
lugar sem igual no cânon da Bíblia. — Ap.19:7,8; 21:9.
CONTEÚDO DO CÂNTICO DE SALOMÃO
A matéria do livro é apresentada na forma de uma série de conversas. Há
constante mudança de personagens. As pessoas que desempenham o papel das
partes faladas são Salomão, rei de Jerusalém, um pastor, sua amada
sulamita, os irmãos dela, as damas da corte (“filhas de Jerusalém”) e as
mulheres de Jerusalém (“filhas de Sião”). (Ct.1:5-7; 3:5,11) São
identificadas por aquilo que elas próprias dizem ou pelas palavras
dirigidas a elas. O drama se desenrola perto de Suném, ou Sulém, onde
Salomão está acampado com sua comitiva da corte. Expressa um tema
comovente — o amor de uma jovem camponesa, da aldeia de Suném, pelo seu
companheiro pastor.
A sulamita no acampamento de Salomão (1:1-14). A jovem aparece
nas tendas reais, onde o rei a introduziu, mas ela só anseia ver seu
amado pastor. Com saudades do seu amado, ela fala como se ele estivesse
presente. As damas da corte (“filhas de Jerusalém”) que assistem o rei
olham curiosamente para a sulamita por causa da sua tez morena. Ela
explica que está queimada do sol por cuidar dos vinhedos de seus irmãos.
Daí, fala ao seu amado como se ela estivesse livre, e pergunta onde o
pode encontrar. As damas da corte mandam-na ir pastorear o seu rebanho
perto das tendas dos pastores.
Salomão entra em cena. Não está disposto a deixá-la partir. Ele exalta a
beleza dela e promete adorná-la com “argolinhas de ouro” e “botõezinhos
de prata”. Mas a sulamita resiste aos avanços dele e deixa-lhe saber que
o único amor que ela sente é pelo seu amado. 1:11.
O amado pastor aparece (1:15–2:2). O amado da sulamita consegue
penetrar no acampamento de Salomão e a encoraja. Ele lhe expressa todo o
seu amor. A sulamita anseia que seu querido fique perto dela e quer ter
o simples prazer de viver unida com ele nos campos e nos bosques.
A sulamita é uma moça modesta. “Sou apenas um açafrão da planície
costeira”, diz ela. Seu amado pastor a julga incomparável: “Como lírio
entre as plantas espinhosas, assim é minha companheira entre as filhas.”
2:1, 2.
A donzela sente saudades de seu pastor (2:3–3:5). Separada de
novo de seu amado, a sulamita mostra o quanto o preza acima de todos, e
diz às filhas de Jerusalém que elas estão sob juramento de não tentarem
despertar nela um amor não desejado por outro. A sulamita relembra o
tempo em que seu pastor respondeu à sua chamada e a convidou a passear
nas colinas na primavera. Ela o revê subir os montes, pulando de
alegria. A sulamita o ouve gritar para ela: “Levanta-te, vem, ó
companheira minha, minha bela, e vem.” Mas, seus irmãos, que duvidavam
da sua constância, zangaram-se e ordenaram-lhe trabalhar na guarda dos
vinhedos. Ela declara: “Meu querido é meu e eu sou dele”, e implora-lhe
que se apresse a vir para junto dela. 2:13, 16.
A sulamita descreve sua detenção no acampamento de Salomão. De noite, na
cama, sente saudades de seu pastor. Novamente lembra as filhas de
Jerusalém que estão sob juramento de não despertarem nela um amor não
desejado.
A sulamita em Jerusalém (3:6–5:1). Salomão retorna com grande
pompa a Jerusalém, e o povo admira o seu cortejo. Nessa hora cruciante,
o amado pastor não abandona a sulamita. Ele segue a sua companheira, que
está usando um véu, e entra em contato com ela. Ele encoraja a sua amada
com palavras de ternura. Ela lhe diz que quer libertar-se e abandonar a
cidade; ele então cai num êxtase de amor, e diz: “Tu és inteiramente
bela, ó companheira minha.” (4:7) Um simples olhar dele para ela faz o
coração dele bater mais rápido. Suas expressões de afeto são melhores do
que o vinho, sua fragrância é como a fragrância do Líbano e a sua pele é
como um paraíso de romãs. A moça convida seu amado a vir ao ‘jardim
dele’, e ele aceita. As amistosas mulheres de Jerusalém os encorajam,
dizendo: “Comei, companheiros! Bebei e embriagai-vos com expressões de
afeto!”. 4:16; 5:1.
O sonho da donzela (5:2–6:3). A sulamita conta às mulheres da
corte um sonho em que ouve alguém bater. Seu amado está lá fora e
pede-lhe que o deixe entrar. Mas ela está deitada. Quando finalmente se
levanta para abrir a porta, ele desapareceu no meio da noite. Ela sai
para procurá-lo, mas não o encontra. Os vigias a maltratam. Ela diz às
damas da corte que estão sob juramento de dizer a seu amado, se o
encontrarem, que ela desfalece de amor. Elas lhe perguntam o que faz com
que ele seja tão notável. Ela responde com uma descrição encantadora
dele, dizendo que ele é “deslumbrante e corado, o mais conspícuo de dez
mil”. (5:10) As damas da corte lhe perguntam onde ele foi. Ela responde
que foi pastorear entre os jardins.
Os últimos avanços de Salomão (6:4–8:4). O Rei Salomão se
aproxima da sulamita. Novamente lhe diz quão bela ela é, mais bela do
que “sessenta rainhas e oitenta concubinas”, mas ela o rejeita. (6:8) Só
está ali porque uma incumbência de serviço a levou perto do acampamento
dele. ‘O que vê em mim?’ pergunta ela. Salomão tira partido de sua
pergunta ingênua e lhe diz quão bela ela é, dos pés à cabeça, mas a
donzela repele os avanços dele. Declara corajosamente sua devoção a seu
pastor, clamando para que ele venha. Pela terceira vez diz às filhas de
Jerusalém que estão sob juramento de não despertarem nela um amor não
espontâneo. Salomão deixa-a partir. Fracassou em conquistar o amor da
sulamita.
O retorno da sulamita (8:5-14). Os irmãos dela vêem-na
aproximar-se, mas ela não está sozinha. Está “encostando-se no seu
querido”. Ela relembra ter conhecido seu amado debaixo de uma macieira,
e declara o seu inquebrantável amor por ele. São mencionados alguns
comentários anteriores de seus irmãos sobre a preocupação destes a
respeito dela quando “pequena irmã”, mas ela diz que revelou ser mulher
madura e estável. (8:8) Que seus irmãos consintam agora no seu
casamento. O Rei Salomão pode ficar com a sua riqueza! Ela se contenta
com o seu único vinhedo, pois ama alguém que lhe é exclusivamente
querido. No seu caso, seu amor é tão forte quanto a morte e suas
labaredas como “a chama de Deus”. A insistência na devoção exclusiva,
“tão inexorável como o Seol”, triunfou e conduziu à elevação sublime de
união com seu amado pastor. 8:5, 6.
PROVEITO PARA OS NOSSOS DIAS
Que lições, ensinadas neste cântico de amor, pode o homem de Deus achar
proveitosas hoje? A fidelidade, a lealdade e a integridade aos
princípios piedosos nos são claramente mostradas. O cântico ensina a
beleza da virtude e da inocência numa pessoa que ama verdadeiramente.
Ensina que o verdadeiro amor permanece inflexível, inextinguível, não
pode ser comprado. Os jovens cristãos, homens e mulheres, bem como
maridos e esposas, poderão tirar proveito deste excelente exemplo de
integridade diante de tentações e seduções.
Este cântico inspirado é também de muito proveito para a Igreja cristã
como um todo. Os cristãos do primeiro século o reconheciam como parte
das Escrituras inspiradas, tendo um deles escrito: “Todas as coisas
escritas outrora foram escritas para a nossa instrução, para que, por
intermédio da nossa perseverança e por intermédio do consolo das
Escrituras, tivéssemos esperança.” (Rom.15:4) É bem possível que esse
mesmo escritor inspirado, Paulo, tivesse em mente o amor exclusivo da
sulamita pelo seu pastor, quando escreveu à Igreja cristã: “Pois, estou
ciumento de vós com ciúme piedoso, porque eu, pessoalmente, vos prometi
em casamento a um só marido, a fim de vos apresentar como virgem casta
ao Cristo.” Paulo escreveu também sobre o amor de Cristo pela sua Igreja
como o de um marido para com a esposa. (2Cr.11:2; Efé.5:23-27) Jesus
Cristo não só é o Pastor Excelente para eles, mas é também seu Rei, e
prometeu a seus seguidores a alegria indescritível do “casamento” com
ele nos céus. Ap.19:9; João.10:11.
Esses seguidores de Cristo Jesus podem certamente tirar muito proveito
do exemplo da sulamita. Eles também precisam ser leais no seu amor, não
se deixando enlaçar pelo brilho materialista do mundo e mantendo
equilíbrio na sua integridade até obterem a recompensa. Sua mente está
fixa nas coisas de cima e ‘buscam primeiro o Reino’. Eles acolhem com
alegria os sinais de afeto de seu Pastor, Jesus Cristo. Transbordam de
alegria ao saberem que este amado, está perto deles, dando-lhes
encorajamento para vencerem o mundo. Tendo tal amor inextinguível, tão
forte pelo seu Pastor-Rei, vencerão, sim, e se unirão a Ele no glorioso
Reino dos céus. Mat.6:33; João.16:33.