2 Samuel
(2Sm)
Escritores: Provavelmente
o sacerdote Abiatar
Lugar da Escrita: Israel
Data: Entre 931 e 722 a.C.
Tema: Rei Davi precursor do Messias
A nação de Israel estava desesperada por causa da derrota que sofrera em
Gilboa e da invasão do país pelos vitoriosos filisteus em conseqüência
disso. Os líderes de Israel e a nata de seus jovens jaziam mortos. É
então que Davi, o jovem “ungido de Deus”, filho de Jessé, faz sua
entrada propriamente dita na cena nacional. (2 Sam. 19:21) Assim começa
o livro de Segundo Samuel, que bem poderia ser chamado de livro de Deus
e Davi. A narrativa está cheia de ação de toda sorte. Vai desde o nadir
da derrota até o zênite da vitória, desde a angústia de uma nação
dilacerada pelas lutas internas até a prosperidade de um reino unido e
desde o vigor da juventude até a sabedoria da idade avançada. Aqui se
relata a vida íntima de Davi, que de todo o coração procurava seguir a
Deus. É um relato que deve incitar o leitor a fazer um escrutínio de seu
coração, a fim de estreitar sua relação com seu Criador e ter o Seu
favor.
O nome de Samuel, na realidade, nem sequer é mencionado no relato de
Segundo Samuel, sendo este nome dado ao livro, pelo que parece, por ter
sido originalmente um só rolo, ou volume, com Primeiro Samuel.
Devemos aceitar o livro de Segundo Samuel como parte do cânon da Bíblia
pelos mesmos motivos apresentados com respeito a Primeiro Samuel. É
incontestável a sua autenticidade. A própria franqueza e sinceridade dos
escritores, não passando por alto nem mesmo os pecados e as faltas do
Rei Davi, é, em si, forte evidência indireta da veracidade desse
documento.
Todavia, a evidência mais convincente da autenticidade de Segundo Samuel
reside no cumprimento das profecias, especialmente as relacionadas com o
pacto do Reino feito com Davi. Deus fez a seguinte promessa a Davi: “Tua
casa e teu reino hão de ficar firmes por tempo indefinido, diante de ti;
teu próprio trono ficará firmemente estabelecido por tempo indefinido.”
(2 Samuel 7:16) Mesmo no crepúsculo do reino de Judá, Jeremias declarou
que esta promessa feita à casa de Davi subsistiria, dizendo: “Assim
disse Deus: ‘No caso de Davi, não se decepará homem seu, impedindo-o de
sentar-se no trono da casa de Israel.” (Jer. 33:17) Esta profecia se
cumpriu, pois, mais tarde, Deus suscitou a “Jesus Cristo, filho de
Davi”, da tribo de Judá, segundo testifica tão claramente a Bíblia. Mat.
1:1.
CONTEÚDO DE SEGUNDO SAMUEL
Eventos no início do reinado de Davi (2 Samuel 1:1-4:12). Após a
morte de Saul, junto ao monte Gilboa, um amalequita foge da batalha e
apressadamente vai ter com Davi, em Ziclague, para lhe dar a notícia.
Procurando agradar a Davi, inventa a história de que ele próprio tirou a
vida de Saul. Em vez de elogios, o amalequita recebe como recompensa a
morte, pois testifica contra si mesmo, dizendo que matou “o ungido de
Deus”. (1:16) O novo rei, Davi, compõe então uma endecha, “O Arco”, na
qual deplora a morte de Saul e de Jonatã. Este cântico atinge um belo
clímax na expressão comovente do superabundante amor de Davi por Jonatã:
“Estou aflito por ti, meu irmão Jonatã, tu me eras muito agradável. Teu
amor a mim era mais maravilhoso do que o amor das mulheres. Como caíram
os poderosos e pereceram as armas de guerra!” 1:17, 18, 26, 27.
Sob a ordem de Deus, Davi e seus homens mudam-se com suas famílias para
Hébron, no território de Judá. Ali, os anciãos da tribo ungem a Davi
qual rei. O general Joabe se torna o mais proeminente dos apoiadores de
Davi. Contudo, Is-Bosete, filho de Saul, como rival no trono de Israel,
é ungido por Abner, chefe do exército. Há choques periódicos entre as
duas forças oponentes, e Abner mata um irmão de Joabe. Por fim, Abner
passa para o lado de Davi. Ele leva para Davi a Mical, filha de Saul,
por quem Davi havia pago muito tempo antes o dote do casamento. Mas
Joabe aproveita a oportunidade para matar Abner, vingando assim a morte
de seu irmão. Davi fica muito angustiado com isso, eximindo-se de
qualquer culpa. Pouco depois, o próprio Is-Bosete é assassinado,
enquanto ‘faz a sua sesta do meio-dia’. 4:5.
Davi, rei em Jerusalém (5:1-6:23). Embora esteja reinando em Judá
já por sete anos e seis meses, Davi se torna agora o rei absoluto, e os
representantes das tribos o ungem para ser rei sobre todo o Israel. Esta
é a sua terceira unção. Um dos primeiros atos de Davi na qualidade de
rei do inteiro reino é capturar a fortaleza de Sião, em Jerusalém,
ocupada pelos jebuseus; ele os surpreende, passando pelo túnel de água.
Davi faz, então, de Jerusalém a sua capital. Deus dos exércitos abençoa
a Davi, tornando-o grande, cada vez mais. Até mesmo Hirão, o rico rei de
Tiro, envia a Davi cedros valiosos e também trabalhadores para a
construção de uma casa para o rei. A família de Davi aumenta, e Deus faz
prosperar o seu reino. Há mais duas batalhas com os combativos
filisteus. No primeiro destes, Deus rompe as fileiras do inimigo diante
de Davi, em Baal-Perazim, dando-lhe assim a vitória. No segundo combate,
Deus realiza outro milagre, fazendo ouvir um “ruído de marcha nas copas
dos lentiscos”, o que indica que Deus vai à frente de Israel para
derrotar os exércitos dos filisteus. (5:24) Mais uma grande vitória para
as forças de Deus!
Tomando consigo 30.000 homens, Davi põe-se a caminho para trazer a arca
do pacto de Baale-Judá (Quiriate-Jearim) para Jerusalém. Ao ser
transportada ao som da música e com grande alegria, a carroça em que é
carregada dá um solavanco, e Uzá, que está caminhando do lado, estende a
mão para segurar a Arca sagrada. “Nisso se acendeu a ira de Deus contra
Uzá, e o verdadeiro Deus o golpeou ali pelo ato irreverente.” (6:7) A
Arca fica na casa de Obede-Edom, e, nos três meses seguintes, Deus
abençoa ricamente a casa de Obede-Edom. Depois de três meses, Davi
põe-se a caminho para ir buscar a Arca e levá-la de modo correto pelo
resto do caminho. A Arca é conduzida para a capital de Davi com gritos
alegres, música e dança. Davi dá livre curso à sua grande alegria,
dançando perante Deus, mas sua esposa Mical desaprova isto. Davi
insiste: “Vou festejar perante Deus.” (6:21) Em conseqüência disso,
Mical permanece sem filhos até morrer.
O pacto de Deus com Davi (7:1-29). Chegamos, agora, a um dos mais
importantes eventos da vida de Davi, diretamente relacionado com o tema
central da Bíblia: a santificação do nome de Deus por meio do Reino, sob
a Semente prometida. Este evento se origina do desejo de Davi de
construir uma casa para a arca de Deus. Residindo ele próprio numa linda
casa de cedro, Davi revela a Natã seu desejo de construir uma casa para
a arca do pacto de Deus. Por intermédio de Natã, Deus reafirma a Davi
Sua benevolência para com Israel e faz com ele um pacto que subsistirá
para sempre. Entretanto, não será Davi, mas o seu descendente (semente)
quem edificará uma casa para o nome de Deus. Além disso, Deus faz a
amorosa promessa: “E tua casa e teu reino hão de ficar firmes por tempo
indefinido diante de ti; teu próprio trono ficará firmemente
estabelecido por tempo indefinido.” 7:16.
Comovido pela bondade que Deus manifestou, fazendo este pacto do Reino,
o coração de Davi transborda de gratidão por toda a benevolência de
Deus: “Que única nação na terra é semelhante ao teu povo Israel, que
Deus foi remir para si como povo e designar um nome para si, e fazer
para eles coisas grandes e atemorizantes? . . . E tu mesmo, ó Deus, te
tornaste seu Deus.” (7:23, 24) E Davi ora fervorosamente pela
santificação do nome de Deus e para que a sua casa seja firmemente
estabelecida perante Ele.
Davi estende o domínio de Israel (8:1-10:19). Mas, Davi não
reinará em paz. Restam combates a travar. Davi passa a derrubar os
filisteus, os moabitas, os zobaítas, os sírios e os edomitas, estendendo
assim o território de Israel até os limites fixados por Deus. (2 Sam.
8:1-5, 13-15; Deut. 11:24) Depois, ele volta a sua atenção para a casa
de Saul, a fim de, em consideração a Jonatã, manifestar sua benevolência
para quem quer que remanesça. Ziba, servo de Saul, chama a atenção de
Davi para Mefibosete, filho de Jonatã, que tem os pés aleijados. Davi
ordena imediatamente que todos os bens de Saul sejam entregues a
Mefibosete e que suas terras sejam cultivadas por Ziba e seus servos, a
fim de fornecerem sustento à casa de Mefibosete. Quanto ao próprio
Mefibosete, comerá à mesa de Davi.
Morrendo o rei de Amom, Davi envia embaixadores a seu filho Hanum para
lhe expressar sua benevolência. Mas os conselheiros de Hanum acusam Davi
de os ter enviado para espiarem o país, e eles os humilham e os enviam
de volta meio nus. Irritado com tal afronta, Davi envia Joabe com seu
exército para vingar essa injúria. Dividindo as suas forças, ele derrota
facilmente os amonitas e os sírios que haviam vindo para socorrê-los. Os
sírios reúnem novamente as suas forças, só para sofrerem nova derrota
causada pelos exércitos de Deus, sob o comando de Davi, e perdem 700
condutores de carros e 40.000 cavaleiros. Eis mais uma evidência do
favor e da bênção de Deus sobre Davi.
Davi peca contra Deus (11:1-12:31). No ano seguinte, na
primavera, Davi envia de novo Joabe contra Amom, para sitiar a cidade de
Rabá, mas ele próprio fica em Jerusalém. Certa noitinha, do terraço de
sua casa, ele vê a linda Bate-Seba, esposa de Urias, o hitita, que se
banha. Ele manda trazê-la para sua casa, tem relações sexuais com ela, e
ela fica grávida. Davi tenta encobrir isto, mandando Urias vir da luta
em Rabá e enviando-o para casa para se revigorar. Mas, Urias recusa
agradar a si mesmo e ter relações sexuais com sua esposa enquanto a Arca
e o exército “estão morando em barracas”. Davi, desesperado, manda Urias
de volta para junto de Joabe com uma carta que diz: “Ponde Urias na
frente das mais fortes cargas de batalha e tereis de retirar-vos de
detrás dele, e ele terá de ser golpeado e morto.” (11:11, 15) Assim
morre Urias. Depois de passados os dias de luto de Bate-Seba, Davi
leva-a imediatamente para sua casa, onde ela se torna sua esposa, e
nasce o filho deles, um menino.
Isto é mau aos olhos de Deus. Ele envia o profeta Natã a Davi com uma
mensagem de julgamento. Natã diz a Davi que havia dois homens, um rico e
outro pobre. Um tinha muitos rebanhos, mas o outro tinha uma só
cordeirinha que criava como animal de estimação na família e era “como
uma filha”. Mas, quando chegou a ocasião de fazer uma festa, o rico não
tomou uma ovelha dos seus próprios rebanhos, mas a cordeirinha do homem
pobre. Ouvindo isto, Davi fica irado e exclama: “Por Deus que vive, o
homem que fez isso merece morrer!” Em resposta, vêm as palavras de Natã:
“Tu mesmo és o homem!” (12:3, 5, 7) Ele pronuncia então um julgamento
profético de que as esposas de Davi serão violadas publicamente por
outro homem, a sua casa será flagelada por lutas internas e seu filho,
nascido de Bate-Seba, morrerá.
Sinceramente desolado e arrependido, Davi reconhece abertamente sua
falta: “Pequei contra Deus.” (12:13) Cumprindo-se a palavra de Deus, a
criança, fruto da união adúltera, morre depois de sete dias de
enfermidade. (Mais tarde, Davi tem outro filho com Bate-Seba; a este
chamam de Salomão, nome que se deriva de uma raiz que significa “paz”.
Entretanto, Deus manda, por intermédio de Natã, que o chamem também de
Jedidias, que significa “Amado de Deus”.) Depois desta triste
experiência, Joabe chama Davi a Rabá, onde tudo está pronto para o
ataque final. Tendo capturado as reservas de água daquela cidade, Joabe,
por respeito ao rei, deixa para este a honra de capturar a própria
cidade.
As dificuldades na família de Davi (13:1-18:33). Começam as
dificuldades na casa de Davi quando Amnom, um dos filhos de Davi, se
apaixona por Tamar, irmã de seu meio-irmão, Absalão. Amnom finge estar
doente e pede que lhe enviem a bela Tamar para cuidar dele. Ele a
violenta, e daí a odeia intensamente, de modo que a manda embora em
humilhação. Absalão planeja vingança, aguardando um momento oportuno.
Cerca de dois anos mais tarde, ele organiza um banquete, ao qual Amnom e
todos os demais filhos do rei são convidados. Quando o coração de Amnom
está alegre pelo vinho, ele é apanhado de surpresa e morto por ordem de
Absalão.
Temendo o desagrado do rei, Absalão foge para Gesur, onde vive em
semi-exílio por três anos. No ínterim, Joabe, o chefe do exército de
Davi, trama um meio de reconciliação entre Davi e Absalão. Faz com que
uma mulher sábia de Tecoa conte ao rei uma história inventada sobre
retribuição, banimento e punição. Quando o rei pronuncia o veredicto, a
mulher lhe revela a verdadeira razão de sua presença: é que o próprio
filho do rei, Absalão, está banido em Gesur. Davi percebe que Joabe
planejou isto, mas dá permissão para que seu filho retorne a Jerusalém.
Passam mais dois anos até o rei consentir ver Absalão face a face.
Apesar da benevolência de Davi, Absalão não tarda em conspirar contra
seu pai para se apoderar de seu trono. Absalão é extraordinariamente
belo entre todos os homens valentes de Israel, e isto contribui para
torná-lo ambicioso e orgulhoso. Cada ano, o cabelo que se corta de sua
bela cabeleira pesa uns dois quilos e trezentos gramas. (2 Sam. 14:26,
nota) Por meio de diversas manobras astutas, Absalão começa a seduzir o
coração dos homens de Israel. Por fim, a conspiração é revelada. Absalão,
obtendo permissão de seu pai para ir a Hébron, anuncia ali o seu
propósito rebelde e pede a ajuda de todo o Israel na sua insurreição
contra Davi. Quando grande número de pessoas toma o lado deste seu filho
rebelde, Davi foge de Jerusalém com uns poucos apoiadores leais, sendo
típico destes Itai, o geteu, que declara: “Por Deus que vive e por meu
senhor, o rei, que vive, no lugar em que meu senhor, o rei, vier a
estar, quer para a morte quer para a vida, lá virá a estar o teu servo!”
15:21.
Ao fugir de Jerusalém, Davi fica sabendo da traição de um de seus
conselheiros de maior confiança, Aitofel. Ele ora: “Por favor,
transforma em estultícia o conselho de Aitofel, ó Deus!” (15:31) Zadoque
e Abiatar, sacerdotes leais a Davi, e Husai, o arquita, são enviados de
volta a Jerusalém, para observarem as atividades de Absalão e darem
notícias. Nesse meio tempo, no ermo, Davi se encontra com Ziba, o
assistente de Mefibosete, que informa que seu amo espera que agora o
reino seja devolvido à casa de Saul. Quando Davi passa por lá, Simei, da
casa de Saul, amaldiçoa-o e atira pedras nele, mas Davi impede que seus
homens se vinguem.
O usurpador Absalão, em Jerusalém, tem relações sexuais com as
concubinas de seu pai “sob os olhares de todo o Israel”, seguindo a
sugestão de Aitofel. Isto se dá em cumprimento do julgamento profético
de Natã. (16:22; 12:11) Aitofel aconselha também Absalão a tomar uma
força de 12.000 homens e ir perseguir Davi no ermo. No entanto, Husai,
que ganhou a confiança de Absalão, recomenda outro plano. E, segundo a
oração de Davi, o conselho de Aitofel é frustrado. Semelhante a Judas, o
frustrado Aitofel vai para casa e se estrangula. Husai relata
secretamente os planos do usurpador Absalão aos sacerdotes Zadoque e
Abiatar, que, por sua vez, mandam transmitir a mensagem a Davi que se
acha no ermo.
Isto possibilita que Davi atravesse o Jordão e escolha o lugar para a
batalha na floresta de Maanaim. Ali, ele desdobra em ordem de combate
suas tropas e ordena-lhes que tratem Absalão com bondade. Os rebeldes
sofrem derrota esmagadora. Quando Absalão foge num mulo por entre a
floresta fechada, a sua cabeça fica presa nos ramos mais baixos de uma
grande árvore, e ali fica suspenso no ar. Encontrando-o em tal apuro,
Joabe o mata, desconsiderando totalmente a ordem do rei. A profunda
tristeza de Davi ao ouvir a notícia da morte de seu filho se reflete na
sua lamentação: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Oh!
que eu, eu mesmo, tivesse morrido em teu lugar, Absalão, meu filho, meu
filho!” 18:33.
Eventos finais do reinado de Davi (19:1-24:25). Davi continua a
lamentar amargamente até que Joabe insta com ele que reassuma a sua
devida posição como rei. Ele nomeia agora a Amasa qual chefe sobre o
exército, no lugar de Joabe. A caminho de volta, ele é bem acolhido pelo
povo, também por Simei, cuja vida Davi poupa. Mefibosete também pleiteia
a sua causa, e Davi lhe dá herança igual à de Ziba. Todo o Israel e Judá
ficam de novo unidos sob Davi.
Entretanto, novas dificuldades hão de surgir. Seba, um benjamita,
proclama-se rei e desvia de Davi a muitos. Amasa, a quem Davi instrui
para convocar homens para pôr fim à rebelião, encontra Joabe que o
assassina traiçoeiramente. Joabe assume então o controle do exército e
persegue Seba até a cidade de Abel de Bete-Maacá, sitiando-a. Seguindo o
conselho de uma mulher sábia da cidade, os habitantes executam Seba, e
Joabe se retira. Por causa de culpa de sangue, não-vingada, em razão de
Saul ter matado os gibeonitas, há uma fome em Israel que dura três anos.
Para remover essa culpa de sangue, sete filhos da casa de Saul são
executados. E, novamente em batalha contra os filisteus, a vida de Davi
é salva por um triz por Abisai, seu sobrinho. Seus homens juram que ele
não mais deverá sair à batalha com eles “para que não apagues a lâmpada
de Israel!”. (21:17) Três de seus homens valentes se distinguem,
destruindo os gigantes filisteus.
Nesta altura, o escritor insere no relato um cântico de Davi a Deus, que
corresponde ao Salmo 18, e que expressa agradecimentos por livrá-lo “da
palma da mão de todos os seus inimigos e da palma de Saul”. Com alegria,
ele declara: “Deus é meu rochedo, e minha fortaleza, e Aquele que me põe
a salvo. Aquele que faz grandes atos de salvação para o seu rei e usa de
benevolência para com o seu ungido, para com Davi e para com a sua
descendência por tempo indefinido.” (22:1, 2, 51) Segue-se, então, o
último cântico de Davi, em que admite: “Foi o Espírito de Deus que falou
por meu intermédio, e a sua palavra estava na minha língua.” 23:2.
Voltando à narrativa histórica, encontramos alistados os homens
poderosos que pertencem a Davi; três dos quais são notáveis. Estes estão
envolvidos num incidente que ocorre quando se estabelece um posto
avançado dos filisteus em Belém, a cidade natal de Davi. Davi expressa o
desejo: “Quem me dera beber da água da cisterna de Belém, que está junto
ao portão!” (23:15) Com isso, os três homens valentes irrompem pelo
acampamento dos filisteus, tiram água da cisterna e a trazem a Davi.
Mas, Davi recusa beber. Em vez disso, derrama-a no chão, dizendo: “É
inconcebível, da minha parte, ó Deus, fazer isso! Beberia eu o sangue
dos homens que andam arriscando as suas almas?” (23:17) Para ele a água
é equivalente ao sangue vital que arriscaram para obtê-la. A seguir são
alistados os 30 homens mais poderosos de seu exército, bem como as
façanhas.
Por fim, Davi peca por fazer a contagem do povo. Implorando misericórdia
a Deus, propõe-se-lhe a escolha entre três tipos de punição: sete anos
de fome, três meses de derrotas militares ou três dias de pestilência no
país. Davi responde: “Caiamos na mão de Deus, porque são muitas as suas
misericórdias; mas não caia eu na mão dum homem.” (24:14) A pestilência
sobre a nação inteira mata 70.000 pessoas, e só pára quando Davi, agindo
segundo as instruções de Deus, que recebe por intermédio de Gade, compra
a eira de Araúna, onde oferece a Deus sacrifícios queimados e de
participação em comum.
POR QUE É PROVEITOSO
O leitor de hoje encontrará muita coisa proveitosa em Segundo Samuel!
Quase todas as emoções humanas da vida real são retratadas em linguagem
viva e muito expressiva. Assim, os resultados desastrosos da ambição, da
represália (3:27-30), do desejo ilícito de possuir o cônjuge de outrem
(11:2-4, 15-17; 12:9, 10), de atos traiçoeiros (15:12, 31; 17:23), do
amor baseado somente na paixão (13:10-15, 28, 29), do julgamento
precipitado (16:3, 4; 19:25-30) e da falta de respeito pelos atos de
devoção de outrem constituem fortes avisos para nós. 6:20-23.
Mas, tiramos proveito muito maior de Segundo Samuel, examinando-o de um
ângulo positivo e seguindo seus numerosos e excelentes exemplos de boa
conduta e boas ações. Davi é um modelo de alguém que demonstrou devoção
exclusiva a Deus (7:22), foi humilde diante de Deus (7:18), enalteceu o
nome de Deus (7:23, 26), teve atitude correta na adversidade (15:25),
arrependeu-se sinceramente do pecado (12:13), foi fiel à sua promessa
(9:1, 7), manteve o equilíbrio sob prova (16:11, 12), teve confiança
contínua em Deus (5:12, 20) e demonstrou profundo respeito pelas
providências tomadas por Deus e pelas designações feitas por ele (1:11,
12). Não é de admirar que Davi tenha sido chamado ‘um homem que agradava
ao coração de Deus’! 1 Sam. 13:14.
Em Segundo Samuel, encontra-se também a aplicação de muitos princípios
da Bíblia. Entre estes, os princípios sobre a responsabilidade coletiva
(3:29; 24:11-15), que as boas intenções não mudam os requisitos de Deus
(6:6, 7), que a chefia estabelecida na organização teocrática de Deus
deve ser respeitada (12:28), que se requer expiação pela culpa de sangue
(21:1-6, 9, 14), que uma pessoa sábia pode evitar que sobrevenha
calamidade a muitos (2 Sam. 20:21, 22; Ecl. 9:15) e que a lealdade à
organização de Deus e a seus representantes precisa ser mantida, “quer
para a morte quer para a vida”. 2 Sam. 15:18-22.
Mas, acima de tudo, Segundo Samuel aponta para o Reino de Deus e dá
brilhantes vislumbres desse Reino que Ele estabelece nas mãos do “Filho
de Davi”, Jesus Cristo. (Mat. 1:1) O juramento que Deus fez a Davi,
relativo à permanência de seu reino (2 Sam. 7:16), é citado em Atos
2:29-36, com referência a Jesus. Que a profecia: “Eu mesmo me tornarei
seu pai e ele mesmo se tornará meu filho” (2 Sam. 7:14), aponta
realmente para Jesus, é demonstrado em Hebreus 1:5. Isto foi também
comprovado pela voz de Deus que falou desde os céus: “Este é meu Filho,
o amado, a quem tenho aprovado.” (Mat. 3:17; 17:5) Finalmente, o pacto
do Reino com Davi é mencionado por Gabriel nas suas palavras dirigidas a
Maria, ao falar de Jesus: “Este será grande e será chamado Filho do
Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e ele
reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e não haverá fim do seu
reino.” (Luc. 1:32, 33) Quão emocionante parece ser a promessa da
Semente do Reino à medida que se vai desenvolvendo cada fase diante de
nossos olhos!