Adoradores em conflito
Texto bíblico: Nm 11-20
Texto básico: Nm 11.12.16; 13.1-14.45; 19.1-22
Texto áureo: “Perdoa a iniqüidade deste povo, segundo a grandeza
da tua benignidade, como também perdoaste a este povo desde a terra do
Egito até aqui”. Nm 14.19
Começaremos o estudo de hoje pelo texto áureo: “Perdoa, pois, a
iniqüidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia...”. A
sociedade brasileira encerrou mais uma celebração da promiscuidade, o
carnaval, a celebração da falsidade. Bem apropriado, então, que voltemos
nossa atenção para essa parte do livro de Números (11-20), que inclui
diversos relatos da atitude de rebeldia e infidelidade contra o Senhor,
demonstrada pelo povo de Israel.
ADORADORES EM DISSONÂNCIA
(Nm 11.1-12.16)
Uma consulta aos dicionários nos permitirá compreender o título dessa
divisão de nosso estudo. Dissonância, dizem os dicionários, é um
“conjunto de sons desagradáveis ao ouvido; desarmonia, discordância”
(Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa); “Junção de sílabas ou
palavras que soam mal” (Dicionário Koogan Larouse). Não era a primeira
vez (Ex 15; 16; 17). Mas agora era demais. Três queixas seguidas: Taberá
(11.1-9), Quibrote-Taavá (11.4-9) e Hazerote (12.1-16). Depois de todas
as manifestações da graça e do amor de Deus não devia haver mais lugar
para murmuração.
A mão de Deus atuou de forma poderosa. No aspecto punitivo, os
murmuradores viram cair fogo do céu e queimar as extremidades do arraial
(11.2), e os que, gulosos, sofreram uma espécie de “indigestão” de
carne, vindo a morrer (11.32-35). Viram também Miriã, aquela que liderou
o coro de adoradores depois da travessia do Mar Vermelho (Ex 15.20,21),
ser acometida de lepra de modo a ficar “branca como neve” (12.10), por
haver pretendido usurpar a posição de líder ocupada por Moisés. No
aspecto provedor, a cessação do fogo poupando o arraial, a “chuva” de
codornizes (pequenas aves) que caiu sobre o arraial por um mês inteiro
(11.18-20, 31) e a cura de Miriã (12.14-16), sempre em resposta às
orações de Moisés (11.10-15; 12.13).
A murmuração parece ser um mal que tem comprometido o ser humano desde o
Éden. Adão já murmurou contra Deus por lhe haver dado a Eva (Gn 3.12).
Há pessoas que estão sempre vendo “o espinho da roseira” e não desfrutam
da beleza e do perfume da rosa. Na família, na igreja, na sociedade,
sempre vêem apenas os aspectos negativos. Jamais têm um elogio sincero
para dar a alguém e, raras vezes, uma oração de gratidão ao Senhor.
Orando, são mais as suas queixas que o seu louvor. Adoradores
dissonantes, Que Deus tenha misericórdia de todos nós, como com Miriã, e
não nos trate como aos gulosos de Hazerote.
ADORADORES EM PÂNICO
(Nm 13.1-14.45)
Acampando Israel em Parã, Deus instruiu Moisés a enviar uma comitiva de
representantes do povo para observar a terra de Canaã (13.1,2). Essa
região, ao Sul de Canaã, serviu de abrigo a Ismael, quando foi expulso
da casa de Abraão (Gn 21.21), e a Davi, depois da morte do profeta
Samuel (1Sm 25.1). Os espias, um de cada tribo, foram enviados com
instruções de avaliar as condições de resistência dos povos por onde
deveria Israel passar, em seu caminho a Canaã, e os recursos que
poderiam encontrar os hebreus ali para sua subsistência (13.17-20).
Os espiões voltaram em pânico. Não havia canções em seus lábios. Não
havia folguedo de danças em sua marcha. O medo roubou-lhes os sonhos.
Outra vez a atitude frente aos desafios frustram os mais audaciosos
projetos. Notem-se as expressões do relato: o povo é poderoso, as
cidades fortificadas, não poderemos contra eles, são mais fortes que
nós, a terra devora homens. E para culminar: ao que nos pareceu, eles
nos viam como se fôssemos gafanhotos (13.25-33). Contagiado pelo pavor
dos espiões, o povo mais uma vez murmura contra Moisés e contra Deus
(14.1-4). Os homens que inspiraram essa sedição foram punidos, feridos
com uma praga, porque “tendo visto a minha glória e os prodígios que
fiz... não obedeceram à minha voz” (14.11,37).
Dois homens, entretanto, tiveram a coragem de andar na direção oposta à
da maioria. É preciso coragem para levantar a voz e ser contra o que diz
a maioria, mesmo que isso possa custar-nos postos, dinheiro e até mesmo
a vida. Mas tal coragem será sempre premiada quando, contrariando o
pensamento e as atitudes da maioria, optarmos por fazer exclusivamente a
vontade de Deus. Assim foi com José e Calebe, cujos olhos estavam fitos
na promessa (14.6-10).
ADORADORES COBERTOS DE CINZAS
(Nm 19.1-22)
Outros episódios de rebeldia se seguiram aos já examinados: Corá, Datã e
Abirão (16.1-19), da congregação (16.41,42). Mas a rebeldia do povo foi
sempre severamente punida pelo Senhor (16.20-40; 16.43-50). Deus, que é
abundante em graça e misericórdia, oferece ainda um recurso para
evidenciar seu perdão ao pecador penitente: uma mistura de cinza de uma
novilha queimada fora do arraial, madeira de cedro, hissopo e tecido,
com água (19.1-22). Essa seria a água da purificação, que seria para
purificar qualquer pessoa que tocasse algo imundo. Cumpria-se aqui quase
que a totalidade do prescrito em Levítico 4, salvo pelo fato de o animal
ser imolado e queima do fora do arraial. Provavelmente por isso, a
palavra hebraica utilizada para queimar seja, aqui sãrap, e não ‘õlãh,
que indica sacrifício queimado sobre o altar.
Alegando origens nessa prática do Antigo Testamento, citando, inclusive,
o texto ora em apreciação (Nm 19.9, 17; Et 4.1; Jô 4.6; Dn 9.3), o
catolicismo instituiu o rito da quarta-feira de cinzas como sinal do
início do tempo da quaresma. Segundo o MUNDO CATÓLICO WEB SITE, “as
primeiras edições deste sacramental datam do século VII” e “já era parte
do sacramental Gregoriano”. Segundo o mesmo site, as cinzas são feitas
com os ramos de palmas distribuídos no ano anterior, no domingo de
Ramos, e são abençoados pelo sacerdote, que as impõe, em forma de cruz,
ao fiel. Como nos quarenta dias que se seguem é proclamado o jejum –
especialmente com abstinência de carne vermelha – essa quarta-feira era
também conhecida como carnaval.
O termo carnaval teria sua origem no milanês carnelevale (1130), tendo
como base o latim medieval carne-leváre (séc.XI-XII), indicando o dia em
que se inicia a abstinência de carne exigida na quaresma. A festividade
acontecia somente na manhã da quarta-feira, como para despedir-se o fiel
das finas iguarias de que se privaria nos próximos quarenta dias, em
sinal de humilhação diante de Deus, em busca de perdão. A história
encarregou-se de ir introduzindo as modificações da festa,
relacionando-a com outras celebrações ainda mais pagãs, até chegar-se ao
que conhecemos hoje, especialmente em nossa pátria: ocasião em que se
exacerba a luxúria, a sensualidade e toda orgia própria da adoração pagã
ao “deus deste século” que “cegou o entendimento dos incrédulos, para
que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual
é a imagem de Deus” (2Co4.4).
APLICAÇÕES PARA VIDA
1. A propósito da murmuração, da falta de otimismo, e confiança
diante dos revezes ou das dificuldades de nossa jornada, vale o seguinte
comentário: “... a decisão mais importante que se pode tomar, com
relação ao nosso viver diário, é a atitude pessoal. Ela tem maior peso
que nosso passado, nossa formação acadêmica, nossa conta no banco, nosso
sucesso ou fracasso, fama ou insucesso... A atitude é um cordel que nos
mantém em movimento ou nos imobiliza (...) E, no entanto, temos que
reconhecer que, na maior parte do tempo, estamos mais preocupados com
outros cordéis que se arrebentam e se tornam inúteis... do que com
aquele que ainda está em nossa mão: a atitude que vamos assumir”.¹
Cuidemos que nossa atitude não seja, para nossa adoração. Como a mosca
para a essência do perfumista (Ec 10.1).
2. O risco de termos nossa adoração interrompida por gritos de
desespero é grande. Precisamos ter o cuidado de não perdermos o foco de
nosso culto. O foco, a platéia de nossa adoração, é Deus. O Deus eterno
e Todo-Podoroso, o senhor da terra e dos céus, a ele somente há de ser a
nossa adoração (Sl 150.1). Quando não, o pânico pode tomar conta, a
dissonância romper a harmonia de nosso cantar, e poderemos ver nossas
“harpas” penduradas nos “salgueiros” enquanto os que estão ao nosso
redor, ironicamente, nos pedem que lhes cantemos canções.